Salão Internacional de Humor de Piracicaba

Logo_NormalO Salão Internacional de Humor de Piracicaba surgiu em 1974, em meio à ditadura militar, como uma iniciativa corajosa de um grupo de piracicabanos – jornalistas, artistas e intelectuais – que costumavam se reunir num conhecido bar da cidade chamado Café do Bule.

Tudo começou com a ideia de inserir uma mostra de humor gráfico dentro do Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba. A partir daí, esses piracicabanos partiram para uma viagem com destino ao Rio de Janeiro, no ano de 1972. Na capital carioca, Alceu Marozzi Righeto, Adolpho Queiroz e Carlos Colonnese, estabeleceram contato com o jornal “O Pasquim” e apresentaram o projeto ao cartunista Jaguar, que aprovou a iniciativa. Por escrito, Jaguar autorizou a cessão de seus originais em poder da Editora Abril, que não atendeu ao pedido e a mostra não aconteceu.

Após este fato, um grupo maior, encabeçado por Luiz Antônio Lopes Fagundes – na época Secretário Municipal de Turismo de Piracicaba – que contava com Alceu, Adolpho, Colonnese, Roberto Antonio Cêra, Ermelindo Nardin e Luis Mattiazzo (Chefe de Gabinete da Prefeitura), apoiado pelo então Prefeito de Piracicaba, Adilson Benedito Maluf, resolveu criar o Salão de Humor de Piracicaba. Alceu e Cerinha convenceram Fagundes a usar uma verba de 10 mil cruzeiros – a princípio destinada ao Salão de Fotografia – para a organização do I Salão de Humor de Piracicaba.

Para tal, teriam que voltar ao Rio de Janeiro e convencer os editores do “O Pasquim” a participarem do empreendimento. Seguiram viagem com a convicção que iam conseguir o seu objetivo. Depois de muita estrada, conversas, confusões e garrafões de pinga, os jovens que desejavam criar, numa cidade do interior de São Paulo, um Salão de Humor Gráfico que mais caberia em uma cidade grande, conseguiram o apoio de Jaguar, Millôr Fernandes, Paulo Francis e Zélio Alves Pinto.

A partir daí, teve início a grande amizade entre Piracicaba e os cartunistas mais festejados do Brasil e no ano de 1974 foi realizado o I Salão de Humor de Piracicaba, com a participação de Millôr, Ziraldo, Zélio, Jaguar, Fortuna e Ciça.

Em pleno regime militar, com o receio de ter suas portas lacradas no primeiro dia, o Salão ultrapassou todas as expectativas iniciais. Ninguém imaginaria que a partir da terceira edição, o evento se tornaria internacional, transformando Piracicaba em uma espécie de capital do humor para a qual anualmente tem os olhos de artistas do mundo inteiro voltados para si.

Conhecidos cartunistas brasileiros contribuíram para a transformação do Salão de Piracicaba num dos mais importantes encontros do humor gráfico do Brasil e exterior, entre eles: Ziraldo, Fortuna, Millôr, Zélio, Henfil, Jaguar, Luis Fernando Veríssimo, Paulo e Chico Caruso, Miguel Paiva, Angeli, Laerte, Glauco, Edgar Vasques, Jaime Leão, Gual e Jal.

Realizado a 44 anos e considerado um dos Salões mais importantes do mundo no universo das artes gráficas, continua cumprindo seu papel na valorização da arte do desenho de humor: um espaço de reflexão e fruição do belo, revelando talentos, mostrando os profissionais consagrados e resgatando autores e obras históricas.

 

A descoberta do humor em Piracicaba

Como na descoberta da América, o Salão de Humor de Piracicaba também nasce debaixo de algumas controvérsias.

Ao que tudo indica, foram duas expedições até que os descobridores pisassem em terra firme.

A primeira, promovida pelo Roberto Cêra e pelo artista plástico Ermelindo Nardin. Chegaram ao Rio em 1972 e estabeleceram contatos imediatos de terceiro grau com a patota do Pasquim, tentando criar um espaço para o desenho de humor dentro do então consagrado Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba.

A segunda expedição, através da orientação do mestre navegador Zélio Alves Pinto, partiu de Piracicaba em 1973, levando os jornalistas Alceu Marozzi Righeto e os jovens grumetes Adolfo Queiroz e Carlos Colonnese, portando garrafões de um líquido precioso aos nativos da região: pinga. Os garrafões estouraram pelo caminho, com o calor que emanava para dentro do galaxie preto da prefeitura, e eles entraram, avenida Brasil adentro, ungidos pelo odor característico que, segundo a lenda, muito agradou aos deuses da galhofa. Essa foi a expedição que logrou êxito, e em agosto de 1974, no saguão do Banco Português, na praça José Bonifácio, nascia o 1° Salão de Humor de Piracicaba.

Paulo Caruso/cartunista (“PIRACICABA 30 ANOS DE HUMOR”. Imprensa Oficial do Estado – 2003)

 

Por que o desenho de humor no Salão de Arte Contemporânea?

“Por que o desenho de humor no Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba nos anos 70?” perguntou-me Paulo Caruso, há poucos dias.

A idéia nasceu depois de conversas minhas com o jornalista Roberto A. Cêra, da comissão organizadora do referido salão.

Procurávamos abrir novos espaços dentro do S.A.C. para outras formas de visualidade. Pensávamos em várias possibilidades, mas o enfoque foi o desenho de humor, pela excelente qualidade das artes produzidas no país, e que àquele momento poderiam trazer transformações ao salão, apontando inclusive para novos conceitos.

Paralelamente ao S.A.C., em 1967, quando organizadores, as artes gráficas, para nossa satisfação, foram privilegiadas: as exposições de obras do acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP, época em que o professor Walter Zanini era o diretor e muito nos apoiou e orientou; do M.A.C. da USP vieram as exposições Gravuras Nacionais e Estrangeiras, com obras de Picasso, Chegall, Rottluff, Marcelo Grassmann, Samico, Roberto Magalhães e outros. Também os desenhos de “Di Cavalcante Jovem” tiveram lugar nas exposições realizadas na ESALQ, Piracicaba.

Foi com esse olhar que, em 1972, Roberto Cêra e eu estivemos na redação do Pasquim, no Rio de Janeiro, onde trabalhavam grandes desenhistas de humor, a fim de convidá-los a expor em Piracicaba. Nosso projeto era fazer, paralela ao S.A.C., uma exposição de artistas que apresentassem uma visão do desenho de humor no Brasil, com obras originais e publicações. E, além disso, trazer para dentro do S.A.C., através do traço, as irreverências e críticas ao movimento político que vivíamos então.

Essas foram as primeiras idéias e os primeiros passos para a realização do Salão de Humor de Piracicaba.

Ermelindo Nardin/artista plástico, professor universitário (“PIRACICABA 30 ANOS DE HUMOR”. Imprensa Oficial do Estado – 2003)

 

Histórias da história do Salão

Um dia, há trinta anos passados, chegou-me um grupo de estudantes do Diretório Acadêmico da Universidade Mackenzie, em São Paulo, liderados por Fernando Coelho dos Santos, com a idéia de realizarem um concurso de humor. Poucos meses depois, abríamos uma bela exposição de cartuns com alta dose de humor e crítica. Com o apoio da Folha de S. Paulo e da TV Bandeirantes, e tendo a presença inclusive da patota do velho e bom Pasquim, foi um sucesso de repercussão nacional.

O êxito da iniciativa repercutiu em Piracicaba e lá despertou em outro grupo a vontade de repetir a experiência. O Salão se tornou internacional menos por megalomania e mais por receio da truculência do regime militar que voltava seus ódios contra os cartunistas e chargistas que desafiavam o AI-5 e a censura. Uma atividade de caráter internacional já representava uma certa cobertura contra o regime que evitava repercussões de seus desmandos no estrangeiro. Claude Moliterni, da editora Dargaut, já na segunda edição compareceu ao Salão. A antiga estrada Luiz de Queiroz, que ligava Piracicaba à rodovia Anhanguera, era estreita, poeirenta, e por ela circulavam os enormes treminhões de cana, completando um espetáculo inédito aos olhos azuis de Moliterni, nosso primeiro convidado europeu que abriu o caminho para outros. Em nossa viagem para levá-lo de São Paulo a Piracicaba, ele já se maravilhava com a inédita paisagem que se descortinava ao longo dos duzentos e tantos quilômetros de estrada, e foi quando começamos a bolar uma HQ contando a aventura pelo sertão paulistano, que na história ele identificou, “pour donner um peu plus d’émotion”, como as bordas da Floresta Amazônica. Foi dessa forma que mais tarde foi publicada uma edição especial com o título Piracicaba Mon Amour. Foram lances assim que, ao longo dos anos, levaram o Salão Internacional de Humor de Piracicaba a se tornar, mais do que um evento de sucesso, também um marco na história das artes gráficas, do quadrinismo e do humor gráfico nacional.

Zélio Alves Pinto/cartunista, artistas plástico (“PIRACICABA 30 ANOS DE HUMOR”. Imprensa Oficial do Estado – 2003)

 

O Pai do Salão

O Café do Bule era um bar que ficava debaixo da Rádio Difusora. Neste local, um grupo de amigos, jornalistas, artistas, intelectuais e amantes desta cidade tinha como hábito reunir-se informalmente, para trocar idéias e jogar conversa fora. Foi quando os colaboradores das páginas de Os Recados, Alceu, Cerinha, Nardin e Adolfo, esboçaram um movimento no sentido de realizar uma mostra de histórias em quadrinhos de humor e cartuns.

O movimento não parou, uns querendo fazer uma mostra gráfica junto ao Salão de Arte Contemporânea, outros uma mostra paralela, sem vínculo e com a participação de cartunistas. Venceu a idéia de realizar o Salão de Humor, como evento independente e com cara própria.

No orçamento municipal de 1974 constava uma verba de 10 mil cruzeiros, para realização do Salão de Fotografia, com a finalidade de criar, no futuro, um Museu da Imagem e do Som. O Alceu e Cerinha sugeriram trocar a verba do Salão de Fotografia por uma mostra de humor. Liderados pelo Alceu, um grupo de amigos começou a se movimentar, fazendo contato com o realizador do Salão do Mackenzie, o Pasquim e outros meios ligados ao humor gráfico. O valor que esse evento representa para a cidade, e para o país, poderia até ser comparado, nas devidas proporções, ao Masp, como o Louvre para os franceses, ou uma Tate Gallery para os britânicos, se não houvesse as devidas atenções em promovê-lo.

Na minha opinião, todos têm um pouco de responsabilidade pela criação. O verdadeiro pai do salão foi a união da vontade de todos, uns com as idéias, outros com ação, mobilidade e outros com a vontade de fazer. Sua permanência significará a garra e a vontade da cidade em realizá-lo cada dia melhor.

Luiz Antonio Lopes Fagundes/engenheiro civil (“PIRACICABA 30 ANOS DE HUMOR”. Imprensa Oficial do Estado – 2003)

 

A outra coisa

Não foi combinado, ninguém planejou, mas acho que todos sentiram. Lançado em plena ditadura militar, o Salão de Humor de Piracicaba seria um salão de humor e seria outra coisa.

Essa outra coisa nunca teve um nome exato. Barricada? Resistência? Válvula de escape? Travessura heróica? O fato é que desde os primeiros salões lá estavam, em Piracicaba, o Millôr, o Jaguar, o Ziraldo, o Henfil, o Zélio, os Caruso – todos levados pelo instinto e pela necessidade da outra coisa. A ditadura acabou, o Salão cresceu e a outra coisa hoje é outra coisa. Mas seja o que for, continua. É o que distingue o Salão de Piracicaba dos seus imitadores e da concorrência, e nos faz voltar ano após ano. A idéia de que, além de uma celebração do talento brasileiro e um dos grandes eventos do humor mundial, a festa em Piracicaba é… é… assim… como dizer? Outra coisa.

Luiz Fernando Veríssimo/escritor e cartunista (“PIRACICABA 30 ANOS DE HUMOR”. Imprensa Oficial do Estado – 2003)

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