40º Salão de Humor de Piracicaba abre exposição e anuncia premiados no próximo sábado

Post 97 de 444
40º Salão de Humor de Piracicaba abre exposição  e anuncia premiados no próximo sábado
Exposição reúne obras de 64 países

foto: Salão Principal – Dirso Barelli

 Em 1974, o humor era uma demonstração de seriedade e a linguagem do cartum e das charges, a forma de expressar a insatisfação contra a ditadura. Foi quando nasceu o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, uma travessura heroica no ápice do regime militar. O evento que acolheu manifestações satíricas por meio do desenho comemora 40 anos sem crise de meia-idade. No sábado (24), às 19h30, será aberta a histórica mostra. As visitas gratuitas seguem 20 de outubro, no Engenho Central.

Vitrine do humor gráfico no mundo, o Salão é realizado pela Secretaria da Ação Cultural e pelo Centro Nacional de Humor Gráfico (CEDHU Piracicaba). Dele despontaram Laerte Coutinho, Angeli e Glauco Villas Boas (los Três Amigos, que depois fizeram história na Folha de S. Paulo), os irmãos Paulo e Chico Caruso, Alcy Linares, Dalcio Machado, Cau Gomez e Baptistão. Em 2013, 966 artistas de 64 países enviaram 4.180 trabalhos para a exposição competitiva, que selecionou 442 obras, a maior da história, sendo 142 cartuns, 97 caricaturas, 74 charges, 73 tiras/HQs e 53 com o tema futebol.

Na abertura serão concedidos R$ 47 mil às melhores criações em charge, cartum, caricatura, tiras/hq e outras duas categorias temáticas: Futebol e Saúde Unimed, além do Prêmio Aquisitivo Câmara de Vereadores de Piracicaba, e da honraria máxima, o Troféu Zélio de Ouro, entregue ao melhor de todas as categorias. Após a abertura, o público é convidado a eleger, por meio da internet, o Prêmio Júri Popular Alceu Marozi Righetto.

Mais que impulsionar a cultura e o turismo da cidade, o evento torna Piracicaba referência no humor ao recepcionar em sua abertura artistas de várias partes do país. “O Salão de Piracicaba representa diferentes povos, culturas e costumes. A arte inteligente dos artistas continua a denunciar as atrocidades humanas e nos faz refletir sobre valores essenciais ao homem moderno, o respeito ao próximo e a necessária mudança de comportamento social”, afirma Rosângela Camolese, secretária da Ação Cultural.

Os espaços do Armazém 14 do Engenho Central, onde fica a mostra competitiva, também abrigam 10 lançamentos de livros de humor durante a abertura. São eles: Causos de Santiago, do cartunista Santiago; Que Cara é Essa?, de Fred Ozanan; Uns e Outros Cartuns, de Fausto Bergocce; Gibi Jazz, de Alex Sander Muniz; Ipem-SP em Tiras, de Pedro Montini; História da Caricatura Brasileira, de Luciano Magno; Dito, o Bendito, de Erico San Juan; Nhô Quim, a História que Conheço, de Edson Rontani Jr.; Capivaras, de Erasmo Spadotto; e Balas Não Matam Ideias, de Adolpho Queiroz.

Para o cartunista Eduardo Grosso, diretor do CEDHU Piracicaba, o evento revela novos talentos, valoriza os profissionais e resgata nomes e obras importantes. “A partir da experiência ao longo dos anos, apostamos na profissionalização do Salão, em todos os detalhes. Como instituição viva e sempre permeável, seguimos em busca da valorização dessa interessante ferramenta de reflexão e exercício artístico que é o humor gráfico.”

PARALELAS – A 40ª edição conta com 30 exposições paralelas, a metade no próprio Engenho Central, às margens do rio que dá nome à cidade, e as demais em espaços como a Câmara de Vereadores, Poupatempo, Museu Prudente de Moraes, Casarão do Turismo, Esalq/USP, Rodoviária Intermunicipal, Shopping Piracicaba, Marcenaria – Live Music & Club e Biblioteca Municipal Ricardo Ferraz de Arruda Pinto.

Ultrapassando as fronteiras piracicabanas, os trabalhos que fizeram parte da história do Salão podem ser vistos na capital paulista em mostras paralelas que circulam pelo Metrô, nas estações Corinthians-Itaquera (Linha 3 – Vermelha) e Luz (Linha 1 – Azul), além da Assembleia Legislativa (onde o Salão recebe homenagem em 3 de setembro) e na cidade de Araraquara.

Os trabalhos são assinados por artistas como Yuri Kosobukin (Ucrânia), Angel Boligan (México), O-Sekoer (Bélgica), Turcios (Espanha) e Francisco Puñal (Cuba), além dos brasileiros Angeli, Benett, Jean Galvão, Fortuna, Chico Caruso, Baptistão, Rodrigo Rosa, Miguel Paiva, Santiago, Jota A, Spacca, Luiz Gê, Cau Gomez, Gustavo Duarte, Mário Alberto, Fausto Bergocce, Luciano Veronezi, Erasmo Spadotto e Dalcio Machado.

A programação inclui o 11º Salãozinho de Humor, com abertura às 10h de domingo (25) no Armazém 14A do Engenho Central. Feito em parceria com a CCR AutoBAn, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e Secretaria Municipal de Educação, a versão mirim expõe 232 obras de estudantes de sete a 14 anos, selecionados entre as 2.514 inscritas. Ainda para o público infantil, quatro espetáculos de humor serão apresentados no Teatro Erotides de Campos aos domingos, de 1 a 29 de setembro, sempre às 16h, por meio do projeto Diversão em Cena, da Arcelor Mittal.

Até 20 outubro, estão previstos a 2ª Caminhada de Humor, o 3º Concurso de Microcontos de Humor, o 4º Festival Paulista de Circo, além de workshops realizados pela Oficina Cultural Carlos Gomes, do Governo do Estado de São Paulo, com os profissionais Daniel HDR, Danilo Beyruth, Gustavo Duarte e Avelino.

MOSTRA COMPETITIVA – O público que percorrer a mostra principal do Salão de Humor poderá conferir caricaturas dos presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff, do ministro Joaquim Barbosa e da ex-ministra Marina Silva. Do universo musical estão Dominguinhos, Roberto Carlos, Michael Jackson, Lobão, Freddie Mercury e Caetano Veloso, além do papa Francisco, Fernanda Montenegro, José Saramago, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Pelé.

Os trabalhos na categoria charge confirmam o caráter político do Salão. Entre os temas abordados estão os protestos no país com o lema Vem pra rua, a crise da imprensa escrita, a denúncia do programa de espionagem dos EUA por Edward Snowden e as redes sociais. Foram recorrentes piadas sobre relacionamentos homoafetivos. Nos cartuns, os artistas criticaram a supremacia norte-americana, religião, meio-ambiente e consumismo.

Integraram a comissão de seleção os cartunistas Pryscila Vieira, Natália Forcat, Gilmar Machado Barbosa, Paulo Branco e Lucas Leibholz, o ilustrador Rafael de Latorre, e o professor universitário Celso Figueiredo Neto. Na comissão de premiação estiveram o francês Carlos Brito, a argentina radicada na Alemanha Marlene Pohle, o português António Moreira Antunes, e os brasileiros Zélio Alves Pinto, Ciça Alves Pinto, Roberto Negreiros e Luciano Magno.

DEPOIMENTOS – Presente desde a primeira edição, Zélio hoje dá nome ao grande prêmio do Salão, o Troféu Zélio de Ouro. Ele diz que a mostra, historicamente, tem a função de provocar e causar reflexão do público. “É possível que a maioria de nós esteja acostumado com o humor da galhofa e da gargalhada escancarada. Entretanto, o Salão surgiu do uso da  metáfora para se contrapor à truculência de um regime ditatorial, onde a sutileza do humor se impunha ao pulso cerrado da autocracia”, diz o artista.

Vice-presidente da Feco, Federação Internacional de Cartunistas, Carlos Brito diz que a tendência mundial é de esvaziamento dos trabalhos de humor na imprensa. Apesar de a internet servir como vitrine, Brito crê que a plataforma carece de avaliação criteriosa da qualidade artística. “Perdemos grandes profissionais na Europa, que por falta de espaço migraram para outras áreas. O Brasil caminha na direção oposta: os grandes artistas estão na imprensa e frequentam o Salão de Piracicaba.”

Para o pesquisador de história da caricatura Luciano Magno, trabalhos de vanguarda artística marcam a 40ª edição. “Percebemos a participação entusiástica de artistas nacionais e internacionais, dada a relevância mundial do Salão de Piracicaba na história, pois é o mais importante das Américas e um dos maiores do mundo”, diz Luciano, autor do livro Caricatura Brasileira – Os precursores e a Consolidação no Brasil.

Um dos criadores do Salão de Humor, o jornalista piracicabano Adolpho Queiroz diz que a mostra é despretensiosa, mas politizada. “Foi um dos instrumentos da sociedade brasileira contra a ditadura. Eis que o Salão chega a 64 países, espalhando crença na sua realização, seriedade nos seus julgamentos, qualificando as novas gerações de artistas mundiais que por aqui perpassam seus talentos, ideologias, crenças e utopias.”

SERVIÇO – 40º Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Abertura: 24 de agosto, às 19h30, no Engenho Central (av. Maurice Allain, 454). Visitas até 20 de outubro, de terça a sexta-feira, das 14h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 20h. Entrada gratuita. Acesso pela Passarela Estaiada Aninoel Dias Pacheco e Ponte do Mirante. Informações: (19) 3403-2615, 3403-2620 ou www.salaodehumor.piracicaba.sp.gov.br.

MENU